Último capítulo da série do RJ1 também conversou com um catador que diz ter abandonado a vida de furtos depois que um amigo morreu eletrocutado. ‘Rota do furto’: atrás de cobre, ladrões de cemitérios depredam lápides e saqueiam até o túmulo de Clara Nunes
Atrás de cobre, ladrões têm invadido cemitérios e depredam túmulos atrás do material, comprado por ferros-velhos à margem da lei.
O 4º e último capítulo da série “Rota do furto” foi até o Cemitério São João Batista, em Botafogo, o 2º mais antigo do Rio de Janeiro e um dos mais visados por criminosos.
A série especial de reportagens, que começou na segunda-feira (25), conta como funciona o mercado ilegal. Furtos de cabos também tornam cruzamentos mais perigosos, atrasam trabalhadores e deixam ruas no breu.
A série Rota do furto
Segunda-feira, 25: equipamentos de sinais de trânsito
Terça-feira, 26: cabos alimentadores dos trens
Quarta-feira, 27: iluminação pública
Quinta-feira, 28: peças de cemitério
Não sobra nada
Atrás de cobre, ladrões têm invadido cemitérios e depredam túmulos atrás do material, comprado por ferros-velhos à margem da lei.
Reprodução/ TV Globo
No Cemitério São João Batista, durante as madrugadas, alças, cruzes, placas e até letras são arrancadas do mármore. Nem o túmulo da cantora Clara Nunes escapou.
A aposentada Sueli Carrilho precisou repor em plástico o que ornava em bronze no túmulo da mãe, como o Cristo que a guardava.
“Levaram o granito da cruz, o Jesus, letras, números. Tudo era de bronze”, lamentou.
O crime ameaça o patrimônio histórico.
“A arquitetura tumular no Rio de Janeiro é a mais rica do país. Você vê o monumento ao Marquês de Paraná no estado que se encontra hoje, chega a ser um crime. É imoral. Acho que falta mais do que segurança, acho que falta uma consciência do poder público, da concessionária, essa consciência histórica que a gente não tem”, disse José Marconi Marques de Andrade, restaurador e fundador do grupo SOS Patrimônio.
Mudança de rumo
Nos últimos anos, as investigações da Polícia Civil descobriram uma mudança no perfil dos furtadores de cabos
Reprodução/ TV Globo
Um homem, que não quis ser identificado, conta que passou a roubar cabos para sustentar o vício em drogas.
“Conheci a maconha, da maconha já fui para a cocaína. Aí, fiz 18 anos, passei a vir para o Centro da cidade, abandonei família, abandonei todo mundo”, contou.
Durante anos, o roubo de cabos foi a principal fonte de renda.
“Na primeira vez, peguei cinco metros. Vendi lá no Jacaré e vi que dava dinheiro. E continuei. Na maioria das vezes, era cabo de energia. Que era o que o ferro-velho pagava mais”, destacou.
A rotina seguiu até que um amigo morreu após sofrer uma descarga elétrica. Ao ver o que aconteceu, decidiu mudar de vida.
“Roubava muito nos bueiros aí, por aqui mesmo no Centro. Chegou um dia que estava chovendo, ele entrou no bueiro e morreu”, disse.
Atualmente, ele trabalha em um projeto que acolhe pessoas em vulnerabilidade e tenta conscientizar para as consequências deste crime.
O morto era conhecido como Mineiro e foi sepultado como indigente.
“Falo que não vale a pena. Pode ter o risco de morrer. Como eu perdi um amigo meu, entendeu? Hoje em dia, eu não roubo mais cabo de energia, só garimpo mesmo minha lata, minha [garrafa] pet”, disse.
Perfil
Além dos usuários de drogas, que atuam sozinhos ou em pequenos grupos no furto de cabos, há quadrilhas mais estruturadas e apoiadas, inclusive, pelo crime organizado.
Reprodução/ TV Globo
Nos últimos anos, as investigações da Polícia Civil descobriram uma mudança no perfil dos furtadores. Além dos usuários de drogas, que atuam sozinhos ou em pequenos grupos, há quadrilhas mais estruturadas e apoiadas, inclusive, pelo crime organizado.
“Com o tráfico de drogas tendo ingerência direta nesse tipo de crime, eles têm à disposição deles uma farta quantidade de material humano, disponível para atuar nessa atividade delituosa. E isso realmente é uma das coisas que, por mais que você prenda, continua uma mão de obra para continuar nessa empreitada criminosa”, disse Pedro Medina, subsecretário de Planejamento e Integração Operacional da Polícia Civil.
Muitos crimes acontecem com a ajuda de informações privilegiadas.
“A gente tem investigação em curso em que os traficantes alugavam armamento inclusive se valendo de informações privilegiadas de funcionários ou ex-funcionários de empresas de telefonia”, afirmou o delegado Adriano França, da Delegacia de Roubos e Furtos.
Ele destaca que outra mudança que tem dificultado o trabalho da polícia: o deslocamento de ferros-velhos para o interior de comunidades e, em alguns casos, acontece também a incorporação do comércio pelo tráfico local.
“Temos investigações em curso, que já demonstraram que circulam bilhões nesse mercado clandestino, envolvendo principalmente o cobre. Eles movimentam esse material como fazem com a droga, como fazem com armas, com armamento. Os ferros-velhos clandestinos no interior da comunidade, eles tão espalhados para dificultar a fiscalização. Eles estão pegando casas abandonadas no interior da favela e guardando esse material, descascando, retirando esse cobre, armazenando para posterior venda. A nossa dificuldade maior é conseguir comprovar naquela apreensão que esse produto é produto de ilícito”, disse o delegado.
Cooperação
A investigação dos crimes enfrenta dificuldades, assim como o combate pelo policiamento preventivo. O porta-voz da Polícia Militar afirma que os agentes identificam pessoas que acabam sendo levadas pelos PMs várias vezes.
“Chama a atenção a pessoa sendo presa com seis, dez passagens pelo mesmo tipo de crime. Os policiais relatam e registram que, às vezes, esse furtador, ele comete o crime e no dia seguinte já está cometendo o crime novamente”, contou o coronel Marco Andrade.
O porta-voz da PM pede mais colaboração das empresas.
“A Supervia precisa contribuir de forma mais positiva para que a segurança pública realize seu papel. Por exemplo, nunca recebemos imagens de circuitos internos de TV da Supervia, partilhados com as instituições de segurança pública, para que possamos identificar os criminosos, entender a dinâmica dessas ações”, disse.
A concessionária afirma que promove encontros com agentes para mostrar os equipamentos mais roubados e compartilhar informações que possam ajudar no combate aos furtos.
“A nossa grande intenção aqui é ilustrar os problemas que acontecem na malha ferroviária: os ilícitos, capacitar aqui os policiais que atuam ao redor da malha ferroviária e trazer uma capilaridade maior nesse patrulhamento. Não ficar tão dependente do grupamento ferroviário”, afirmou André Marques, gerente de segurança da Supervia.
A empresa afirma que confia no trabalho da Polícia Militar e que a cooperação com as forças de segurança tem se tornado cada vez mais eficiente. A Supervia disse ainda que participa de um grupo de trabalho das concessionárias com a PM e tem um canal direto com o Grupamento de Policiamento Ferroviário (GPfer), disponibilizando imagens de ocorrências sempre que é solicitada.
O RJ1 acompanhou uma operação da Secretaria de Ordem Pública, com participação das concessionárias e apoio da PM. Eles foram checar uma denúncia de ferro-velho na Penha.
Um funcionário indicou que tem cobre numa sala nos fundos. Eles não souberam explicar a origem do material. Os fiscais encontraram uma pistola.
O local foi interditado, mas, uma semana depois, voltou a funcionar.
Muitos crimes de roubo de cabos acontecem com a ajuda de informações privilegiadas.
Reprodução/ TV Globo
Exemplos
O Rio de Janeiro tenta usar os exemplos de outras cidades que conseguiram reduzir este tipo de crime.
Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo, reduziu os furtos desse tipo de equipamento em 86% em um ano.
“Essa articulação fez com que planejássemos ações. E, a partir daí, a gente conseguiu visitar alguns estabelecimentos comerciais e identificar os receptadores. Fiscalizamos muitos estabelecimentos, identificamos nesses locais alguns produtos de origem suspeita”, afirmou Paulo Sanchez Perez, inspetor-geral da Guarda Civil Metropolitana de Guarulhos.
Em Belo Horizonte, as peças dos sinais foram substituídas por outras, de plástico. Os cabos também foram modificados.
“Nós já tivemos caso de roubar três quilômetros de fiação de uma vez só. Em 2020, 2021 chegamos em uma situação que não dava para suportar mais. Aí procuramos no mercado alguma coisa que não utilizasse o cobre na matéria-prima. E encontramos uma liga bimetálica que não tem cobre, é a base de ferro, que não tem atratividade ao furto. nós conseguimos com isso aí 80% de eliminação do furto”, afirmou José Carlos Mendanha Ladeira, diretor de Sistemas Viários da BH Trans.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *