Os dados mostram que 94% dos cuidadores principais dos menores com idade até 6 anos são mulheres, geralmente mães ou avós. Pesquisa mostra que quase 40% das crianças de até 6 anos do Complexo da Maré já presenciaram algum tipo de violência
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Uma pesquisa inédita mapeou a situação da primeira infância no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Os dados mostram que 38,2% das crianças já presenciaram algum tipo de violência. E mais da metade das famílias encontrou dificuldade para botar comida na mesa durante a pandemia.
A pesquisa da ONG Redes da Maré se chama “Primeira Infância na Maré – Acessos a direitos e práticas de cuidado”, e trata de crianças até seis anos de idade. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (27).
O levantamento entrevistou os responsáveis pelos menores e também foram entrevistados profissionais que trabalham no apoio à primeira infância, como professores, assistentes sociais e profissionais de saúde.
“A partir deste estudo, a gente pode reforçar a ideia que tínhamos anteriormente, considerando a necessidade de avanços em diversas políticas públicas do sistema de garantia de direitos das crianças como a ampliação de vagas no campo da educação, muitas famílias reivindicando vagas em creches, muitas famílias preocupadas com a questão da saúde, de conseguirem brincar no espaço público e a questão da violência”, afirmou Gisele Martins, coordenadora da Redes da Maré.
Cuidados por mulheres
Dados mostram que 94% dos cuidadores principais dos menores com idade até 6 anos são mulheres, geralmente mães ou avós.
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Os dados mostram que 94% dos cuidadores principais dos menores com idade até 6 anos são mulheres, geralmente mães ou avós. E 74,4% se autodeclaram pretas ou pardas. Além disso, 68% têm idade entre 20 e 39 anos.
Em 24% dos lares, a figura paterna inexiste no cotidiano da criança.
Entre as famílias do Complexo da Maré, 51,2% são sustentadas por mulheres
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Entre as famílias, 51,2% são sustentadas por mulheres, 44,7% são sustentadas por homens. Sobre a renda, 32,8% têm renda mensal familiar de até um salário mínimo. E 57,4% das famílias não recebem nenhum tipo de auxílio do governo.
Como a pesquisa foi realizada durante a pandemia da Covid-19, a pesquisa identificou que 54,1% das famílias entrevistadas tiveram dificuldade com a alimentação durante o período. Em 11,8% dos casos, alguém da família deixou de comer ou pulou refeições para não faltar alimento para as crianças.
Sobre a renda das famílias de crianças na Maré, 32,8% têm renda mensal familiar de até um salário mínimo
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Exposição à violência
Os dados mostram que 38,2% dos entrevistados responderam que as crianças sob seus cuidados presenciaram algum tipo de violência, mesmo tão pequenas.
A pesquisa destaca também a inexistência ou dificuldade de acesso aos aparelhos públicos de lazer, cultura e esporte. Assim, 59,8% dos entrevistados consideram que as crianças da casa não acessam essas atividades.
Entre as crianças de até 6 anos que vivem no Complexo da Maré, 38,2% já presenciaram algum tipo de violência
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No último domingo (24), o Fantástico exibiu imagens que fazem parte de uma investigação realizada pela Polícia Civil que durou dois anos e que identificou uma escola preparatória comandada por traficantes que ensina táticas de guerrilha dentro da Maré. O local usado é um centro de lazer que passou a ser tomado por criminosos.
“Eu a coloquei em uma escola que fica longe da casa, da nossa casa, a escola fica do outro lado da comunidade. Tive que colocá-la lá porque foi o único lugar que consegui vaga. E, por causa dos confrontos, certa vez fiquei sem ter como pegá-la e ficou no colégio. E os professores ligando para ir buscar. Fiquei sem conseguir sair daqui, e tive que tirar do colégio e procurar um mais perto pois ficava difícil o acesso na hora dos confrontos”, afirmou Regina Lúcia dos Santos.
Em 2022, 62% das operações policiais ocorreram próximas a escolas e creches, impactando no cotidiano desses menores. As seis creches e 15 Espaços de Desenvolvimento Infantil (EDIs) São os únicos equipamentos públicos voltados para a primeira infância na Maré.
“Na casa da minha mãe sou eu, ela, meus cinco irmãos especiais, minha sobrinha especial e meu filho de dois anos. É difícil uma pracinha para eles ficarem livres, na rua. Na pracinha, de noite, não tem iluminação, não tem como, com moto e carro passando toda hora. Meu filho só tem dois anos e ele morre de medo do Caveirão quando tem operação. A última vez teve 2h, 3h da manhã. Meu filho não conseguiu dormir, chorou bastante”, contou a educadora Joana Peixoto.
Regina Lúcia dos Santos mudou a filha de escola por causa da violência
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Acompanhamento de saúde
Os pesquisadores também perguntaram sobre a saúde dos menores: 96,7% das famílias afirmaram que filhos e netos possuem a caderneta da criança e 92% as usam principalmente para a vacinação.
Porém, 64,6% declararam enfrentar algum tipo de dificuldade no acesso direto à saúde e equipamentos públicos dentro das comunidades.
“Meu maior sonho, desejo para a minha vida, é um dia ver meus filhos crescidos e formados em algo dentro da Maré. Eu não quero ter que sair da Maré para os meus filhos se formarem e crescerem. Quero ver meus filhos formados aqui dentro da Maré. Esse vai ser meu maior sonho e maior orgulho”, disse a dona de casa Priscila Neves.

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