Jornal da Zona Sul e Zona Norte do Rio de Janeiro

Defensoria entrará com um pedido para revogar prisão de homem acusado de roubar um carro em 2019

Alberto Meyrelles de Santa Anna Júnior, que trabalha há 20 anos no mesmo local, contou que teve seu documento furtado e utilizado por criminosos. Foto encontrada em um veículo foi apresentada para uma outra vítima, que reconheceu ser ele o criminoso. Família tenta provar sua inocência. Homem apontado como ladrão é preso após reconhecimento por foto 3×4
A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro anunciou que vai entrar com um pedido solicitando a revogação da prisão de Alberto Meyrelles de Santa Anna Júnior, acusado de ter participado de um assalto no dia 13 de abril de 2019, em Bangu, na Zona Oeste do Rio.
Alberto foi preso nesta quarta-feira (17) pela Polícia Civil do RJ depois de ter sido reconhecido por uma vítima a partir da foto 3×4 da carteira de habilitação dele. Alberto diz que sua prisão foi um erro na investigação, e sua família tenta provar a inocência.
“Ele está bem e calmo porque não tem culpa de nada. Infelizmente, tem que ser preso pra depois tentar ser solto”, disse o pai, que também se chama Alberto.
Um levantamento da Defensoria Pública do RJ apontou que estado teve 73 casos de prisões injustas, em reconhecimentos de fotos, em oito anos.
Alberto foi apontado como criminoso depois de um reconhecimento na delegacia feito a partir da foto da habilitação, que tinha sido roubada no mesmo 13 de abril de 2019, em Realengo, também na Zona Oeste. O documento foi encontrado em um carro do mesmo modelo que os assaltantes usaram.
A habilitação de Alberto foi mostrada à vítima de outro assalto que aconteceu no mesmo dia, em Bangu, bairro vizinho de onde ele tinha sido roubado. Essa vítima apontou Alberto como um dos bandidos.
Com mais de 20 anos de carteira assinada no mesmo emprego, Alberto só descobriu que estava sendo acusado de um crime em janeiro deste ano, quando soube que havia um mandado de prisão contra si.
Karine da Rosa Garcia, mulher de Alberto, grávida de três meses, está indignada com a prisão do marido.
“É revoltante você saber que o seu marido está sendo preso por um crime que não cometeu. A gente está junto há 9 anos. Eu nunca soube e nunca vi nada de errado. Infelizmente, há muitas falhas nesse processo. Com todas as provas do mundo de que ele não cometeu esse roubo, ele foi levado, foi preso, não sei o que vai acontecer com ele, não sei como está a cabeça dele. É muito difícil provar a inocência sendo negro. Isso é um peso enorme que carrega nas costas”, disse Karine.
Erro levado adiante
Depois do reconhecimento da foto 3×4 na delegacia, o Ministério Público pediu a prisão preventiva de Alberto e a Justiça aceitou a denúncia e decretou a sua prisão.
Alberto virou réu sem que nenhuma autoridade tenha questionado o fato de a única prova ser um reconhecimento baseado em um retrato 3×4. Segundo a família dele, a foto tem mais de 20 anos.
Homem tenta provar inocência após ter prisão decretada a partir de reconhecimento facial por uma foto 3 x 4
De acordo com um levantamento da Defensoria Pública do RJ, são 73 casos de prisões injustas no estado, com base em reconhecimento fotográfico, entre 2012 e 2020. Em 81% dos casos, os acusados são negros.
A Defensoria Pública agora tenta provar que o caso de Alberto não passou de um erro. Os defensores pretendem apresentar um pedido de revogação da prisão, assim que ele for levado para a audiência de custódia no presídio de Benfica, na Zona Norte.
“A gente recebe com muita perplexidade a decisão de decretação da prisão preventiva com base num reconhecimento por foto. O próprio STJ teve uma mudança de paradigma nas suas decisões. A gente acredita que a decisão seja revista e espera que o processo penal brasileiro tenha um novo horizonte”, comentou a defensora Lúcia Helena Oliveira.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *