Jornal da Zona Sul e Zona Norte do Rio de Janeiro

Três meses após o lançamento do Supera RJ, pelo menos 50 mil inscritos nem sequer receberam o cartão

Programa foi lançado pelo governo estadual para dar um auxílio emergencial às pessoas que perderam renda e emprego durante a pandemia. 51 mil cartões do Supera RJ ainda não foram entregues
Lançado em junho, o programa Supera RJ foi criado para auxiliar famílias de baixa renda e pessoas que perderam o emprego durante a pandemia. Só que mais de 50 mil cartões nem sequer foram entregues (veja as regras abaixo).
“Meu nome é Angélica. Estava trabalhando só que conforme a pandemia caiu muito o movimento do restaurante que eu trabalhava e eles mandaram muita gente embora”.
Angélica Silva perdeu o emprego em novembro do ano passado.
Sem renda, a vida da família dela piorou.
“Hoje em dia, nessa pandemia, a gente passa por situações complicadas. Ainda mais que as coisas estão muito caras. E esse dinheiro seria uma ajuda”.
Para ajudar pessoas como Angélica a enfrentar a crise econômica causada pelas medidas de combate à pandemia, o governo do estado criou um programa de renda mínima, o Supera RJ.
O dinheiro chega através de um cartão para quem passa por situação de pobreza, com renda familiar mensal por pessoa inferior a R$178.
Ou para quem perdeu o emprego durante a pandemia e ganhava menos de R$1.500.
O valor do benefício é de, no mínimo, R$ 200.
Há três meses, Angélica tenta em vão fazer o básico: pegar o cartão.
“Eu fiz o cadastro no dia 2 de junho e até hoje não recebi o cartão. Pesquisei meu CPF no site, mandaram lá o endereço que era no Poupa Tempo de Bangu. O rapaz falou que cartão não chegou ainda”.
“Ele pegou e falou que era para eu voltar de novo. Na outra semana. Falou que tinha que esperar o pacote do cartão chegar lá. Fui de novo e não chegou. Na outra semana quando ele mandou voltar, voltei e o cartão não estava lá também”.
Mais de 50 mil cartões do Supera RJ estão perdidos na burocracia. Eles existem, mas o governo não conseguiu entregar para quem precisa.
Pelo menos R$ 18 milhões que deveriam estar nas mãos dos mais pobres, estão parados por falta de planejamento e organização da máquina pública.
Para muita gente o Supera RJ virou espera.
“Eu fiz a solicitação em junho e até hoje nenhuma resposta. Tem dinheiro na conta, mas não tem o cartão. O cartão nunca chega no posto de entrega. Eu tô aqui indignado, cheio de conta para pagar e não tem nenhuma resposta do governo”, disse Pedro Lucas.
O programa foi criado aprovado na Alerj em fevereiro desse ano. E no fim de março regulamentado e publicado no Diário Oficial.
O primeiro prazo para pagamento do auxílio emergencial do estado era abril, mas o programa só foi lançado no começo de junho.
Na época, o governador Cláudio Castro falou sobre o atraso no pagamento das parcelas.
“Botar em 90 dias um programa desses de pé, com essa complexidade, não é atraso, é respeito com o dinheiro do contribuinte”.
O primeiro lote de pagamentos foi feito em junho.
Daiana Santos não recebeu porque sequer tem o cartão.
“Eu me inscrevi no Supera RJ em julho e desde então eu venho olhando o site e tá dizendo só que meu cartão está sendo gerado e que eu tenho que aguardar o calendário com o local e dia pra fazer a retirada”.
Em todo estado, o programa beneficia 100 mil famílias inscritas no CadÚnico e desempregadas.
O pagamento está previsto para ser feito até dezembro, mas até quem conseguiu pegar o cartão, enfrenta problemas.
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Mais reclamações
“Eu preciso do crédito para comprar gás. Tô desempregado e preciso comprar gás”, disse Gilberto Moura.
A reclamação de Gilberto é igual a de muitos outros inscritos no Supera RJ, como a do analista de sistemas William Cardoso.
“Fiz o meu cadastro em julho, meu cartão chegou duas semanas depois (…) no site informava que a próxima recarga seria no próximo mês, no dia 20, chegando no dia 20 de agosto, não caiu nenhum valor”, contou William.
Os dois têm em comum o fato de terem sido demitidos durante a pandemia.
Para eles, o dinheiro da ajuda emergencial do governo do estado é extremamente necessário para auxiliar no sustento da família.
Quando perceberam que a parcela de agosto não tinha sido depositada, Gilberto e William ligaram para a Ouvidoria do programa. Mas os dois dizem que o setor, que deveria esclarecer as dúvidas, não responde ou, pior, acaba confundindo ainda mais as coisas.
“Falaram pra entrar em contato com a Ouvidoria, eu entrei em contato com a Ouvidoria e tem sete dias para dar resposta. Já se passaram sete dias e não deram resposta”, disse Gilberto.
“Eu entrei em contato com a Ouvidoria, não tive nenhuma informação, apenas para aguardar, que seria depositado. Chegando dia 25 também não teve nenhuma informação, entrei em contato novamente com a Ouvidoria. A Ouvidoria deu o mesmo prazo, mais cinco ou sete dias úteis para ser depositado o valor e também não foi”, falou William.
Alessandra Pereira mandou um vídeo cobrando respostas.
“Eu recebi este cartão do Supera RJ por ter direito e mês passado não tivemos recarga no cartão e esse mês até hoje, na data de hoje, também não tivemos recarga. Eu gostaria de saber o porquê e o porquê de estar acontecendo isso, se prometem tantas coisas e não cumprem”.
O que diz o governo
O governo do estado disse que envia agentes pessoalmente para localizar os beneficiários e conseguir entregar os 51 mil cartões do Supera RJ.
Sobre o atraso no pagamento da parcela de agosto, o governo disse que alguns cadastros estão sendo avaliados pela coordenação do programa, como é o caso da Alessandra.
Sobre Gilberto, disse que houve um erro no sistema.
Como funciona e quem pode ter acesso ao Supera RJ:
O benefício é voltado às famílias e trabalhadores prejudicados pelas medidas de combate à Covid-19. Serão pagas até 31 de dezembro, ou enquanto durar a pandemia, parcelas mensais de R$ 200;
O programa vai acrescentar R$ 50 para cada filho menor de idade – esse acréscimo será limitado a até dois filhos.
Poderão requerer o auxílio:
O responsável familiar que comprove renda familiar mensal per capita igual ou inferior a R$ 178 e esteja inscrito no Cadastro Único de Programas Sociais (cadúnico) nas faixas de pobreza extrema ou pobreza;
Trabalhadores que tenham perdido vínculo formal de trabalho com salário mensal inferior ao valor de R$ 1.501,00 no período da pandemia da Covid-19, a contar de 13 de março de 2020, e estejam sem qualquer outra fonte de renda, conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) ou base do Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS), privilegiando a base mais atualizada;
Os profissionais autônomos, trabalhadores de economia popular solidária, agricultores familiares, microempreendedores individuais, agentes e produtores culturais, aos profissionais autônomos, inclusive os agentes e produtores culturais, às costureiras, cabeleireiros, manicures, esteticistas, maquiadores, artistas plásticos, sapateiros, cozinheiros, massagistas, empreendedores sociais e os negócios de impacto social de que trata a lei nº 8.571, de 16 de outubro de 2019, desde que cumpram um dos requisitos dos incisos anteriores.

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