Jornal da Zona Sul e Zona Norte do Rio de Janeiro

Cultura 2 – DIVERSIDADE

O título deste escrito é também a palavra que melhor define a poeta e fotógrafa, Maria Lúcia Rocha. Ela começou a escrever cedo, alfabetizou-se praticamente sozinha. Ganhou sua “pasta” escolar, uma pequenina satchel preta, aos quatro anos já contestando não poder estreá-la na escola. Usou-a em casa mesmo, na rua Monte Alegre, onde aprendeu as primeiras letras e a contar números. Quando pode levar sua cartilha, sua tabuada e suas expressivas palavrinhas ao Colégio Menino Jesus, que não tinha nada de religioso, não pode entrar no primário para não constranger as outras crianças! 

(É bom que seja dito: ela nasceu numa família plural com homens, que hoje seriam julgados como afeminados, e mulheres guerreiras. Classe social, gênero e cor não eram assuntos vigentes naquela casa acolhedora; zelar, educar e cuidar do outro, sim).

Algum tempo depois de começar o ensino básico, iniciou as aulas de piano, mas não com a mesma vontade de aprender letras e números. Na verdade, sua mãe é que gostaria de ter uma filha pianista. Obviamente, o desejo de ser pianista era mais da mãe do que de sua rebenta!  Ainda assim, aprendeu a tocar piano muito bem, e suas filhas cresceram ao som de Chopin, Beethoven, Tchaikovsky e tantos outros compositores clássicos. A música amalgamou letra, ritmo e melodia à experiência que “Minhas Parcerias”, livro de Maria Lúcia recentemente lançado, nos oferece.

Já adultas, suas filhas foram convocadas a dar um destino ao piano, pois seu sentido desfez-se com o tempo. Felizmente, seu neto o quis! Até quando, não se sabe. Hoje, para além dos clássicos, nele são executadas trilhas sonoras, as complexas harmonias do jazz e algumas notas que vêm a esse prodígio através da magia que a música opera em muitos de nós. Com ou sem piano, a música sempre está presente na vida de Maria Lúcia, na convivência com os amigos, em seus amores, seus escritos e, sobretudo, nos shows. Diversa que é, já foi produtora, cenógrafa, divulgadora e fotógrafa de muitos artistas. Afinal, como fazer que sua arte tenha uma história se não há registro? A música é efêmera. Reside na dança do cosmos, nos chega antes do entendimento, primitivamente. No entanto, a reprodutibilidade possível de obras e feitos dependem de um registro próprio. A imagem também.

“Minhas Parcerias”, livro de palavra, ritmo, melodia e imagem nasceu de muitos registros. Os primeiros, oriundos das décadas iniciais do século XX, época das grandes inovações, que continuam a nos deixar boquiabertos. Há fotos de seus avós, os nascidos brasileiros e os portugueses. Do lado materno, um álbum repleto dos irmãos da Esther, a matriz, e de seu grande Francisco, que deu régua e esquadro aos 11 filhos, alguns agregados e muitos netos. Dentre os quais, “a pequena”, jeito carinhoso que usava para se referir à Maria Lúcia. Francisco foi um grande instrutor, fosse na escola, no campo de futebol, na barbearia ou na vida. Dele, possivelmente, herdou o zelo pelo conhecimento, o dom de escutar e o amor pelo futebol, ainda que tenha sido apenas o primeiro Francisco de sua vida. Do lado paterno veio a herança de uma globalização embrionária: carros americanos, tecidos ingleses, modelos francesas, câmeras Rolleiflex, bonecas alemãs…  Nesse meio, a menina sapeca, inteligente de cachinhos dourados cresceu, registrada por câmeras em todos os momentos importantes da vida.

Seu pai, Augusto, andava sempre com uma câmera na mão, sua modelo favorita foi Esther, a segunda matriarca da família. Os dois sempre incentivaram Maria Lúcia a seguir registrando a vida. Estão imortalizados em dois dos mais tocantes poemas do livro: Uma mulher e Augusto. Seu irmão e suas filhas estão também em suas páginas. Lili e Kikika a acompanharam no campo do Politheama, time que divide seu coração com o Flamengo, mas também no amor pela Natureza. Ouso dizer que os poemas sobre a Primavera, a Praia de Espelho, além de todos que apresentam relação com nossa mãe maior, são os mais sensíveis. As boas línguas espinosistas nos dizem que o nível mais alto de conhecimento que podemos alcançar é o nível de Deus, o da Natureza.

Minhas Parcerias nos presenteia com a capacidade acolhedora que Maria Lúcia Rocha tem. Diversidade temática que abrange seu testemunho como amante e amada, como agente político, como artista e ecologista, como filha e mãe, como fotógrafa, poeta e ensaísta, mas sobretudo como uma mulher sensível. Parabéns por esse livro que nos chega num momento que precisamos reaprender a fazer parcerias e a apreciar o que há de belo no mundo.    

               Liliane da Rocha Ferreira Nahon Marinho

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