Jornal da Zona Sul e Zona Norte do Rio de Janeiro

Caso Marielle: entenda a nova troca de investigadores e outros desdobramentos


Em menos de uma semana, a direção da Delegacia de Homicídios e a da força-tarefa do Ministério Público mudaram de mãos. Nesta segunda, foram anunciados os novos promotores do caso: serão 8. Homenagem à vereadora Marielle Franco no Centro do Rio
João Carlos Gomes/My Photo Press/Estadão Conteúdo
No início de julho, responsáveis pelas investigações do atentado contra a vereadora Marielle Franco deixaram o caso e, nesta segunda-feira (26), foram anunciados novos integrantes da força-tarefa que apura o caso no Ministério Público do RJ. Neste mês, também vieram à tona desdobramentos sobre o crime.
Marielle e o motorista Anderson Gomes foram executados em março de 2018, no Estácio, na região central do Rio. Um ano depois, a polícia afirmou ter prendido os autores do crime, o PM reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio de Queiroz. Ainda não se sabe quem mandou matar a vereadora.
Nesta reportagem, você encontra:
A troca na polícia;
A troca no MPRJ;
Condenação, soltura e prisão da esposa de Ronnie Lessa;
Elo de Lessa com a milícia de Gardênia Azul;
Nova necrópsia de Capitão Adriano.
A troca na polícia
Delegado Henrique Damasceno
Cristina Boeckel
No dia 5 de julho, um boletim interno da Polícia Civil do RJ anunciava que Edson Henrique Damasceno passava a titular da Delegacia de Homicídios. No Rio, toda morte violenta é investigada pela DH, a despeito do local do crime, e assim foi com o atentado contra Marielle.
A Secretaria Estadual de Polícia Civil não explicou por que essa última mudança foi feita. Damasceno esteve à frente das investigações, pela 16ª DP (Barra da Tijuca), da morte do menino Henry Borel.
Com a chegada de Damasceno à DH, o Caso Marielle trocava de mãos pela terceira vez:
Giniton Lages
Daniel Rosa
Moyses Sant’anna
Edson Henrique Damasceno
A troca no MPRJ
Promotoras deixam força-tarefa que investiga execução de Marielle Franco e Anderson Gomes
No dia 10 de julho, as promotoras Simone Sibilio e Letícia Emile comunicavam a saída da força-tarefa do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) que investiga o atentado. Bruno Gangoni foi escolhido no dia 17 para assumir temporariamente o grupo de trabalho.
Na segunda-feira (26), o MP divulgou que ele e mais sete promotores vão formar a força-tarefa do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco. São eles: Roberta Laplace, Fabiano Cossermelli, Diogo Erthal, Juliana Pompeu, Michel Queiroz Zoucas, Marcelo Winter e Carlos Eugênio Laureano.
Simone e Letícia, que estavam no caso desde setembro de 2018, saíram por receio e insatisfação com “interferências externas”.
Não foram especificadas quais teriam sido essas interferências.
O último ato delas foi a denúncia contra o delegado da Polícia Civil Maurício Demétrio. Ele foi preso no fim do mês passado, suspeito de comandar um esquema que exigia propina de lojistas, que vendiam roupas falsificadas.
As promotoras descobriram algo mais contra o delegado, segundo a TV Globo apurou. De acordo com a denúncia, Demétrio recebeu – de uma pessoa ainda não identificada – informações sigilosas do caso Marielle e Anderson.
As promotoras Letícia Emile e Simone Sibilio, que deixaram a força-tarefa do caso Marielle
Reprodução/TV Globo
A TV Globo também apurou que o desconforto das promotoras começou quando Júlia Lotufo, viúva do ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, quis fazer uma delação premiada revelando informações sobre homicídios e ligações de políticos com criminosos no RJ.
Adriano da Nóbrega foi morto em fevereiro de 2020, num suposto confronto com a polícia na Bahia. O ex-PM estava foragido, acusado de chefiar o Escritório do Crime, um grupo de matadores de aluguel, e também uma milícia na Zona Oeste do Rio.
As duas promotoras chegaram a ouvir o depoimento de Júlia, mas teriam encontrado inconsistências no relato. Mesmo assim, a proposta de delação continuou a ser analisada por promotores de outra área do Ministério Público.
Condenação, soltura e nova prisão
VÍDEO: Entenda a prisão de Eliane Lessa, esposa de Ronnie Lessa, acusado de matar Marielle
No dia 10 de julho, o G1 mostrou que a Justiça condenou o ex-PM Ronnie Lessa, sua esposa, Elaine, o cunhado e dois amigos pelo crime de destruição de provas. À exceção de Ronnie, todos acabaram soltos no dia 11, pois a pena era em regime aberto.
Segundo o MPRJ, os cinco jogaram armas no mar da Barra da Tijuca, quase um ano depois da morte da vereadora e do motorista.
Ao condená-los, a Justiça afirmou que é possível que entre as armas despejadas esteja a submetralhadora utilizada para matar Marielle.
De acordo com a investigação, o material foi retirado de um apartamento de Ronnie Lessa na Taquara dias antes da sua prisão, em 2019. As armas nunca foram encontradas.
Elaine e Ronnie Lessa
Reprodução
Elaine ficou solta somente por uma semana. No dia 18, ela foi presa pela Polícia Federal (PF) por tráfico internacional de armas — a Receita Federal encontrou, em fevereiro de 2017, 16 quebra-chamas para fuzil AR-15 vindos de Hong Kong. A peça serve para ocultar as chamas decorrentes de disparos de armas de fogo, de modo a não revelar a posição do atirador.
O destinatário era a Academia Supernova, que funcionava na comunidade de Rio das Pedras, na Zona Oeste da cidade, controlada pela milícia. Ronnie e Elaine eram sócios do estabelecimento.
Elo com a Gardênia Azul
Miliciano e ex-vereador Cristiano Girão é denunciado por morte de rival
No dia 19, o G1 trouxe que o MPRJ denunciou o ex-vereador carioca Cristiano Girão pelo atentado contra um rival. Segundo o órgão, o crime foi encomendado em 2014 a Ronnie Lessa.
O ex-policial André Henrique da Silva Souza, o Zóio, e a companheira dele, Juliana Sales Oliveira, sofreram uma emboscada na Gardênia Azul, em Jacarepaguá. O casal estava num carro em movimento quando os disparos aconteceram, vindos de outro carro.
A razão para o atentado, segundo o MPRJ, era a disputa por milicianos pelo controle da Gardênia Azul.
Atentado na Gardênia Azul em 2014 vitimou ex-PM e a namorada
Reprodução/TV Globo
A força-tarefa do Caso Marielle do Ministério Público e a Delegacia de Homicídios da Capital concluíram as investigações deste outro crime, que, para os investigadores, demonstram o elo entre Ronnie Lessa — apontado como assassino de Marielle — e Cristiano Girão.
Girão passou a ser suspeito de ter encomendado também a morte de Marielle Franco.
No celular de Ronnie Lessa, foi identificada uma busca no Google para pesquisar informações divulgadas pela imprensa sobre a morte de Zóio.
A pesquisa foi feita em 2018, quatro anos depois do crime. O interesse num caso antigo fez com que ele passasse a ser investigado pelo assassinato.
Dados telemáticos — coletados através de antenas de celular — revelaram que Lessa estava na Gardênia no dia da emboscada. Ele também foi visto por duas testemunhas.
Os investigadores apontam semelhanças entre a emboscada na Gardênia e o assassinato de Marielle e Anderson Gomes:
Os carros das vítimas foram atingidos em movimento, por dezenas de tiros, agrupados;
O atirador fez os disparos de dentro de um carro;
Uma arma automática foi usada: no crime de 2014, um fuzil M16; na morte de Marielle, uma submetralhadora MP5;
Os assassinos ficaram por duas horas de tocaia.
Cristiano Girão foi condenado por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro por comandar a milícia da Gardênia Azul.
Ele estava na cadeia na época dos assassinatos do André e Juliana, mas, segundo o MPRJ, de lá ainda controlava a quadrilha.
Exumação de miliciano
O G1 também descobriu que o corpo do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, morto em confronto com policiais militares em fevereiro de 2020, foi exumado a pedido do Ministério Público da Bahia (MP-BA).
Ele foi morto na cidade de Esplanada, a 155 quilômetros de Salvador. Adriano estava foragido havia mais de um ano e era suspeito de envolvimento no assassinato de Marielle.
As informações dessa nova necropsia serão comparadas com os relatos dos policiais que participaram da ação. Ainda nesse laudo, será possível analisar a distância que os tiros foram disparados, a partir das lesões causadas.
Dois exames já haviam sido feitos no corpo de Adriano, mas a partir desse novo procedimento, será examinada com maior precisão as trajetórias dos disparos que atingiram o miliciano.
Peritos não encontram corpo de Adriano da Nóbrega no local indicado pela família
Os peritos que foram cumprir a ordem da Justiça para exumar o corpo do miliciano Adriano da Nóbrega, a fim de realizar novos exames, não acharam os restos mortais no local indicado pela família.
Parentes do ex-capitão do Bope informaram um cemitério — a polícia não disse qual. Mas o corpo só foi encontrado em outro, o Memorial do Rio, em Cordovil, na Zona Norte da cidade.
Lá, um cemitério vertical, os peritos localizaram o corpo do miliciano no jazigo 01362. Uma placa informa que ali jazia Adriano Magalhães da Nóbrega.
Jazigo onde estava o corpo de Adriano da Nóbrega: família tinha informado outro cemitério
Reprodução/TV Globo
Em agosto do ano passado, a Polícia Civil da Bahia concluiu que o ex-policial militar não havia sido executado, mas que morreu em troca de tiros com os PMs. Adriano foi alvejado duas vezes e teria disparado sete vezes contra os PMs.
Segundo o perito criminal José Carlos Montenegro, que apresentou os resultados da reconstituição do caso, Adriano foi atingido por 2 tiros, após disparar sete vezes contra três policiais que entraram na casa onde ele estava escondido. Dois projéteis atingiram o escudo dos policiais e os outros a parede e uma janela.
Exclusivo: confira escutas e laudo inédito de investigação sobre a morte de Adriano da Nóbrega
Laudos de duas necropsias no corpo do miliciano, porém, contradizem a versão dos PMs que o encontraram. Uma das análises indica que uma bala o atingiu deitado, e não em confronto.
Uma força-tarefa com 70 homens foi mobilizada no cerco ao capitão, mas somente três PMs conseguiram localizá-lo.
Segundo o depoimento desses três policiais, eles deram voz de prisão contra o ex-capitão da varanda. Como Adriano não respondeu, forçaram a porta.
Simulação mostra, segundo depoimento, como os três PMs baianos atiraram contra Adriano da Nóbrega
Reprodução/TV Globo
Assim que a arrombaram, Adriano disparou sete vezes, mas não acertou ninguém. Na mesma hora, dois dos três PMs revidaram, com um tiro cada um — os dois atingiram o miliciano.
A necropsia feita no Rio de Janeiro trouxe detalhes desses tiros que mataram Adriano. Um projétil, segundo o laudo, parece ter vindo rente ao chão.
Uma das balas entrou pela cintura, do lado esquerdo, saiu pela clavícula e entrou novamente no corpo de Adriano, alojando-se no pescoço.
“É um tiro absolutamente em que a vítima provavelmente já estava deitada. Isso precisa ser esclarecido. Esse tiro deveria entrar e sair numa posição paralela ao solo”, diz o perito Nelson Massini.
Laudo da necropsia de Adriano da Nóbrega aponta trajeto de bala que indica que ele estava deitado
Reprodução/TV Globo
Outro dado do laudo é a falta de vestígios de pólvora nas mãos do miliciano — apesar de, segundo os PMs, Adriano ter atirado sete vezes.
Um terceiro destaque são lesões na região da cabeça de Adriano. Massini destaca que os ferimentos foram feitos enquanto o miliciano ainda estava vivo — mas não foram explicados pelos policiais.
Adriano da Nóbrega era apontado como o chefe do Escritório do Crime, um grupo que reúne policiais e ex-policiais que matam pessoas em troca de dinheiro.
Também conhecido como “Capitão Adriano”, ele era considerado pelos policiais uma pessoa violenta e, quando foi morto, estava foragido havia mais de um ano, por causa de um mandado de prisão de janeiro de 2019.
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