Rompendo com a frieza das estatísticas, grupos de bordadeiras de todo o país estão tecendo em grandes painéis os nomes das vítimas da covid-19. Uma forma de homenagem e resistência para o registro das consequências trágicas da maior catástrofe sanitária do último século.

Por Redação, com RBA – do Rio de Janeiro e São Paulo

Desde 17 de março de 2020, quando a primeira morte em decorrência da covid-19 foi noticiada, tornou-se rotina o registro de óbitos em boletins diários. Numa contagem que só aumenta, até a véspera, o total de vidas perdidas já chegava aos 444.094. Por trás desses números de vítimas da covid, milhares de famílias destruídas. Pais, mães, irmãos, tios, primos, filhos, avós, amigos que não sobreviveram.

Entrelaçados, os coletivos fazem parte do projeto Memória Não Morrerá: pelas vítimas da covid-19 em solo brasileiro

Rompendo com a frieza das estatísticas, grupos de bordadeiras de todo o país estão tecendo em grandes painéis os nomes das vítimas da covid-19. Uma forma de homenagem e resistência para o registro das consequências trágicas da maior catástrofe sanitária do último século. 

Entrelaçados, os coletivos fazem parte do projeto Memória Não Morrerá: pelas vítimas da covid-19 em solo brasileiro. Os painéis estarão expostos neste domingo, a partir das 10h, na transmissão virtual da missa de Pentecostes que será celebrada pelo padre Júlio Lancellotti, na Paróquia de São Miguel Arcanjo, na Mooca, Zona Leste da cidade de São Paulo.

Até o momento, os coletivos já bordaram um conjunto de mais de 30 metros de painéis que registram o nome de 1,8 mil vítimas, uma pequena parcela do total. O projeto, contudo, não tem limite de tamanho ou ponto de chegada, como descrevem, e deve continuar crescendo, até acolher a dimensão real das perdas.

Tragédia

Em 24 de março o Brasil superou a marca de 300 mil mortos pela covid-19. E o primeiro painel, que começava a ser bordado pelos coletivos, media menos de dois metros e tecia o nome de 286 pessoas. Menos de 0,1% do total de óbitos àquela altura. Na época, os grupos de bordadeiras calculavam que seriam necessários mais de 2.500 metros de tecido para que os nomes de todas as vítimas estivessem bordados.

“Esta comparação simples, dá a dimensão da nossa tragédia”, apontam os coletivos Linha do Rio, Linha do Horizonte, Linhas de Sampa, Linhas do Mar, Linhas de Santos, Pontos de Lula, Bordaluta, Mulheres da Resistência no Exterior e Linhas Livres. Espalhados por Belo Horizonte, Brasília, Olinda, e os Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, até Nova Iorque, nos EUA.

Vítimas de Bolsonaro

Os bordados também são uma forma de protesto dos coletivos ao que classificam como “equívocos e omissões da política sanitária” do governo de Jair Bolsonaro. Segundo os grupos, a Presidência da República condenou as vítimas a morrer sozinhas, sem despedidas e nem luto. 

“Não vamos naturalizar a morte de mais de 400 mil pessoas. Não vamos deixar de fazer uma homenagem a essas vidas, que não são números, são pessoas, famílias destruídas. Estamos para marcar essa data dizendo que não vamos naturalizar essas mortes. E nem esse projeto de genocídio, de matança da população”, bradam as integrantes em manifestações com os painéis.

No momento em que há a impressão de que os números sobre as vítimas têm sensibilizado cada vez menos, os grupos de bordadeiras reforçam que “basta olhar os painéis para enxergar o paralelo. Para sentir a dor. Para compartilhar a mais profunda revolta e indignação”. Em nome da memória, as manifestações lembram das palavras do poeta Braúlio Bessa: “Se os números frios não tocam a gente, espero que os nomes consigam tocar”.

A transmissão será realizada pelo canal no Youtube, O Arcanjo no Ar e na página do Facebook do coletivo Linhas do Rio.

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