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Os Bondes do Alto da Boa Vista

No final do ano de 1967 encerraram-se definitivamente as atividades da pitoresca linha de bondes elétricos que ia até o Alto da Boa Vista, terminando assim um período de ouro da história dos transportes urbanos.

Seus carros eram simples, bem arejados, inicialmente abertos, depois sucedidos por outros fechados, que foram reformados especialmente para a comemoração dos 400 anos da cidade do Rio de Janeiro no ano de 1965. Esses bondes, mais bonitos, pintados de azul e prateado, ganharam logo dos cariocas o apelido de “Rita Pavone”, cantora italiana, de muito sucesso à época, que havia se apresentado no Brasil. Diziam as pessoas que o nome foi dado porque o veículo possuía na capota uma enorme chave de contato com a rede elétrica, que lembrava os suspensórios que Pavone, nas apresentações,  usava em suas roupas.

A viagem começava pelo lado direito da Avenida Edson Passos e, em outros trechos, o bonde adentrava na Estrada Velha da Tijuca proporcionando aos passageiros um passeio muito agradável e inesquecível, passando por extensa área verde.

Era muito pitoresco o trajeto daquela linha. Embora não muito longo, com aproximadamente cerca de cinco quilômetros, era uma bela atração não só para os turistas estrangeiros e nacionais que nas férias, fins de semana e feriados procuravam uma forma de lazer, como também para os próprios moradores da região que buscavam naquela forma de transporte alternativo.

Os bondes abertos possuíam estribos para o acesso dos passageiros e não havia divisão interna. Os bancos, que eram de madeira, sem nenhum acolchoamento e conforto, acomodavam até cinco passageiros que, em razão da inexistência de passagem por dentro dos carros, não podiam trocar de um para outro lugar com o veículo em movimento. O estribo tinha outra importante função além de servir para o acesso ao bonde: era utilizado pelo cobrador das passagens, que tinha o nome de “condutor”, mas que na verdade era um verdadeiro malabarista. Esse funcionário cobrava a tarifa passando de banco em banco, pendurado no estribo. Além de cobrar dos passageiros colocando as cédulas por entre os dedos, dar troco, registrar as passagens em um grande “relógio” à mostra de todos, ainda era o responsável por sinalizar ao “motorneiro” para este dar saída ao bonde quando do embarque e desembarque. Por derradeiro, ainda comunicava aos passageiros que viajassem no estribo a existência de veículos, eventualmente estacionados, colocando em perigo suas vidas, com o célebre aviso “olha à direita”.

“Cada passagem será registrada à vista do passageiro admitindo-se, para facilitar a cobrança, registrar-se o total por banco”. Essa informação era lida nos relógios de registro das passagens, que ficava no alto, à vista de todos, e era uma forma de minimizar o trabalho dos “condutores” que se esforçavam com tantas atribuições e risco.

Anúncios interessantes decoravam o interior do veículo, conforme o Correio Carioca constatou com a Sra. Luísa Baptista, antiga usuária dos bondes cariocas e moradora da Tijuca há 60 anos. “Lembro bem de vários anúncios que ficavam localizados nas laterais interiores dos bondes, como o das Casas Pernambucanas, que exibia uma multidão e apregoava que um pode errar, dois é difícil e três é impossível; o das Tintas Águia com um menino levando um puxão de orelha por não ter comprado a tinta certa; o da Loção Phenômeno que mostrava um macaco fugindo com um frasco do produto e o do célebre Rhum Creosotado que dizia: veja ilustre passageiro o belo tipo faceiro que o senhor tem a seu lado, mas, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rhum Creosotado”, diverte-se a Sra. Luísa, recordando os bons tempos.

O fim das atividades da linha ocorreu após uma tempestade violenta que desabou sobre a cidade do Rio de Janeiro, danificando a rede elétrica, parte dos trilhos, postes e outros equipamentos importantes. Antes, outro temporal já havia interrompido temporariamente os serviços dos bondes, prejudicando o tráfego, ficando a linha naquela oportunidade reduzida a apenas dois bondes para atender à demanda de usuários. Até hoje partes dos trilhos ainda estão expostas em ruas da Usina e do Alto da Boa Vista.

É de se lamentar o trágico fim de um serviço de transportes, que poderia até mesmo ser explorado pela iniciativa privada. A restauração da linha de bondes para o Alto da Boa Vista viria incentivar, mais uma vez, o turismo, além de proporcionar mais uma opção de transporte para os moradores da região, diminuindo também a poluição e o congestionamento do trânsito.

 


 
 
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